Duzentos anos atrás, um delegado colonial chamado Miguel Nunes Vidigal era dono de um trecho de costa que ninguém queria. Hoje seu sobrenome pertence a um bairro de doze mil pessoas, a um carrossel de vistas para o oceano e a um dos capítulos mais documentados da história moderna do Rio. A história do Vidigal no Rio é uma história de migração, de uma remoção interrompida, de uma guerra do tráfico, de uma festa — e do que vem depois.
Fique no alto do morro e você consegue ler boa parte dessa trajetória na arquitetura. Barracos de madeira da primeira onda. Casas de tijolo vermelho empilhadas em quatro andares da segunda. Concreto pintado e placas solares da terceira. Algumas pousadas de aço e vidro do boom. A favela se lê de baixo para cima como anéis de árvore. Basta saber o que você está vendo.
Um nome que já era antigo em 1940
Antes de ser um bairro, Vidigal era um sobrenome. O Major Miguel Nunes Vidigal foi chefe de polícia do Rio no início do século XIX — uma figura que aparece tanto na história criminal da cidade quanto no folclore. Era temido. Comandava os esquadrões de repressão à capoeira e as patrulhas de captura de escravizados no Rio colonial tardio. Era também, coisa incomum para sua patente, um capoeirista ele mesmo. Na década de 1820, recebeu uma sesmaria — uma concessão de terras colonial — que cobria parte do litoral entre o atual Leblon e São Conrado. O morro que hoje leva seu nome estava nessa concessão.
Durante a maior parte do século XIX e início do XX, a terra não serviu para quase nada. Fazia parte da antiga Fazenda da Gávea, uma propriedade de açúcar e café que foi se fragmentando em fazendas e sítios à medida que a cidade avançava. As encostas eram íngremes demais para plantar e distantes demais do centro para urbanizar. Os ricos do Rio construíam seus sobrados no terreno plano abaixo — Ipanema, Leblon, São Conrado. A ladeira ficou no mato.
O primeiro registro de ocupação no Morro do Vidigal é do final dos anos 1930 e início dos 1940. Alguns barracos de pescadores perto da praia. Poucas famílias trabalhando na construção de estradas para a Avenida Niemeyer, aberta nos penhascos à beira-mar em 1916 e prolongada ao longo dos anos 1930. Construíram onde ninguém estava olhando. Ninguém se importava ainda. A terra era tecnicamente privada, tecnicamente pública, tecnicamente disputada. A papelada tinha cem anos de atraso e ninguém havia se dado ao trabalho de resolver.
Foi assim que a maioria das favelas do Rio começou. Não com um plano, mas com a ausência de um.
Vidigal em números
Um bairro pequeno, íngreme e mapeado de uma dúzia de formas.
- Homenageado: Major Miguel Nunes Vidigal, chefe de polícia e proprietário de terras do início do século XIX.
- Administrativamente parte do bairro de São Conrado, na Zona Sul, fazendo limite com o Leblon.
- A elevação vai do nível do mar a cerca de 250 metros no topo da área habitada.
- O pico do Morro Dois Irmãos, acima da favela, chega a 533 metros.
A primeira onda — anos 1940 a 1950
Os que construíram as primeiras ruas do Vidigal não eram do Rio. Vieram do Nordeste — Bahia, Pernambuco, Ceará, Paraíba — e do interior rural de Minas Gerais. Fugiam da seca, da concentração de terras e do colapso lento da agricultura familiar sob o empurrão industrializante de Getúlio Vargas. O Rio era a capital federal até 1960 e a única cidade do Brasil que podia plaussivelmente absorvê-los.
O que encontraram ao chegar foi um mercado imobiliário que não os queria. O estoque de aluguel formal na Zona Sul era minúsculo e caro. As habitações populares existentes ficavam no extremo da Zona Norte, duas horas de ônibus dos canteiros de obras e das casas de família onde os empregos estavam. Então fizeram o que os migrantes do Rio vinham fazendo desde a década de 1890. Subiram.
Os primeiros barracos na encosta do Vidigal eram de madeira — tábuas serradas à mão e telhados de zinco reaproveitado. Não havia luz, água encanada nem saneamento. A água vinha de uma nascente mais acima, no Dois Irmãos. Lamparinas de querosene iluminavam os interiores. Alguns pequenos comércios — um botequim, uma venda que fiava arroz e feijão — ancoravam as primeiras ruas comerciais.
Em 1950, a comunidade era substancial o suficiente para ter um nome além do próprio "Vidigal". A parte de cima passou a ser chamada de Alto Vidigal. O meio, de Avenida do Vidigal. O trecho mais baixo, perto da praia, ficou com o nome simples. Uma capela foi construída. Uma escola de samba — precursora do que viria a ser os Acadêmicos do Vidigal — começou a realizar ensaios num quintal. O bairro não havia sido planejado. Mas havia começado a se organizar.
Os anos de expansão — décadas de 1960 e 1970
O golpe militar de 1964 fez duas coisas ao mesmo tempo nas favelas do Rio. Acelerou a migração rural ao apostar forte na agricultura em larga escala, deslocando milhões de pequenos agricultores. E decidiu, de forma periódica e inconsistente, que as favelas da Zona Sul eram uma vergonha que precisava sumir.
O Vidigal cresceu rápido nos anos 1960. A abertura do Túnel Zuzu Angel em 1971 conectou São Conrado diretamente ao restante da Zona Sul de carro, o que significou que o mercado de trabalho informal para domésticas, jardineiros, operários e motoristas se expandiu de um dia para o outro. Quem antes ia a pé até o Leblon agora podia pegar um ônibus. A população do morro praticamente dobrou em uma década. A madeira começou a ceder lugar ao tijolo. As primeiras ligações de luz — informais, perigosas, mas funcionais — foram instaladas pelos próprios moradores encosta acima.
Então veio 1977. O governo estadual de Faria Lima, atuando sob o regime militar, anunciou que o Vidigal seria desocupado. O plano era realocar cerca de nove mil moradores para um conjunto habitacional em Antares, no extremo da Zona Oeste — quarenta quilômetros da Zona Sul, duas horas e meia de ônibus, sem emprego e sem infraestrutura. A justificativa oficial era "risco de deslizamentos". A extraoficial era que o mercado imobiliário da Zona Sul havia notado o morro.
Os moradores se organizaram. O que aconteceu em seguida é o evento mais importante da história do Vidigal no Rio e um dos momentos decisivos na história mais ampla das favelas cariocas. A Pastoral de Favelas — um movimento católico de justiça social que vinha organizando silenciosamente as encostas da cidade havia anos — mobilizou. Seu líder era Dom Eugênio Sales, o Cardeal Arcebispo do Rio. Não era um bispo de esquerda. Era uma figura cautelosa, institucional. Mas nessa questão ele traçou uma linha.
Sales escreveu uma carta pública ao governador. Fez homilias na Catedral Metropolitana chamando a remoção de fracasso moral. Enviou padres jovens ao Vidigal para documentar o que estava acontecendo e ajudar os moradores a contratar advogados. Os advogados foram à Justiça Federal e obtiveram uma liminar. A remoção parou. Os moradores ficaram. Em menos de uma década, o estado emitiria os primeiros documentos formais de regularização fundiária para as famílias do Vidigal, tornando o assentamento legal de uma forma que antes não era.
É difícil superestimar o quanto esse desfecho foi raro. No Rio dos anos 1970, favelas eram removidas com frequência e violência. Catacumba, Praia do Pinto, Ilha das Dragas — todas apagadas. O Vidigal é uma das pouquíssimas que resistiu e venceu. A autoestima do bairro, ainda hoje, carrega essa memória.
Não pedimos para ser salvos. Pedimos para ser deixados em paz. — morador do Vidigal, citado no arquivo da Pastoral de Favelas, 1978
Consolidação — a década de 1980
A década seguinte à remoção interrompida foi a década em que o Vidigal se tornou um bairro de verdade. A madeira cedeu lugar ao tijolo e depois à alvenaria. Os telhados saíram do zinco corrugado para a telha cerâmica e depois para as lajes de concreto — as lajes planas que se tornariam a característica arquitetônica definidora das favelas do Rio, porque cada laje é também o piso de um futuro segundo andar. Famílias que chegaram nos anos 1950 sem nada viram seus filhos crescidos acrescentar um terceiro e quarto pavimento sobre o barraco original.
A eletricidade tornou-se quase universal em meados dos anos 1980, ainda que principalmente por meio do gato informal — o fio ligado à rede municipal. A concessionária de água da cidade, a CEDAE, começou a estender canos oficiais para as seções baixa e média. O esgoto ainda escorria em grande parte por valas abertas. Algumas ruas foram pavimentadas. A linha de ônibus pela estrada principal, a 557, foi formalizada. O correio começou a ser entregue, mais ou menos.
Em 1986 aconteceu algo que se revelaria desproporcionalmente importante: Guti Fraga, ator e diretor de teatro, fundou o Nós do Morro — uma companhia teatral sediada dentro do Vidigal, formada inteiramente por moradores. O Nós do Morro não tinha verba, palco nem sede. Começou com aulas em uma sala emprestada na associação de moradores. Nos trinta anos seguintes, formaria dezenas de atores, muitos dos quais apareceriam em filmes como Cidade de Deus (2002) e Tropa de Elite (2007). As novelas produzidas pela Globo que vieram a seguir escalaram alunos do Nós do Morro por anos. Antes de existir qualquer "cena cultural do Vidigal" no sentido jornalístico, havia Guti Fraga dando aula de teatro no escuro.
Em 1989, a escola de samba Acadêmicos do Vidigal desfilava na segunda divisão do Carnaval. A favela tinha bandeira, escola, teatro, linha de ônibus, igreja e — o que é crucial — escritura da maioria de suas casas. Era, em todo sentido relevante, um bairro.
Dez datas que fizeram o Vidigal
A versão curta, para quem precisa da versão curta.
- c. 1820
- Miguel Nunes Vidigal recebe sesmaria costeira; o morro passa a levar seu nome.
- Anos 1940
- Primeiros barracos de pescadores e trabalhadores na parte baixa da encosta.
- 1971
- Túnel Zuzu Angel é inaugurado; população dobra na década seguinte.
- 1977
- Plano de remoção forçada anunciado e depois bloqueado pelos moradores, Dom Eugênio Sales e a Pastoral de Favelas.
- 1986
- Guti Fraga funda o Nós do Morro.
- Anos 1990
- Facções do tráfico consolidam o controle; operações policiais tornam-se rotina.
- Jan 2012
- Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) instalada no Vidigal.
- 2013
- Papa Francisco visita uma favela do Rio durante a Jornada Mundial da Juventude; atenção global dispara.
- Set 2017
- Presença da UPP retirada discretamente; comunidade entra em nova fase.
- 2024–2026
- Estrangeiros de longa estadia, Airbnbs e uma quarta onda de novos moradores chegam.
A década perdida — anos 1990 e 2000
O período entre, aproximadamente, 1988 e 2011 é o capítulo mais difícil da história do Vidigal de se escrever com honestidade, porque é o capítulo que os de fora mais querem reduzir a uma única palavra. A palavra costuma ser "perigoso". A realidade era mais complicada e muito mais triste.
O Comando Vermelho, a primeira facção do tráfico de drogas do Rio, havia emergido de um pipeline de presos políticos durante a ditadura militar. No final dos anos 1980, já havia estendido seu controle à maioria das favelas da Zona Sul, incluindo o Vidigal. Na década de 1990, um grupo dissidente, os Amigos dos Amigos, tomou o controle em uma transição breve e violenta. A mercadoria era cocaína, destinada principalmente à exportação pelo porto do Rio. Os soldados do tráfico eram adolescentes locais, recrutados novos e enterrados novos.
O que isso significou para os moradores do Vidigal — a grande maioria dos quais não tinha nada a ver com o tráfico — foi décadas de um equilíbrio tenso de ordem pontuado por operações policiais. Os traficantes impunham suas próprias regras. Sem furto nas ruas. Sem estupro. Sem dívidas não pagas. Os comércios ficavam abertos até tarde. As mulheres voltavam para casa sozinhas à noite. A taxa de homicídios entre moradores não envolvidos era, paradoxalmente, menor do que em partes da cidade asfaltada a alguns quarteirões dali. Mas o preço era uma comunidade que vivia dentro de uma lei alheia — e uma geração jovem que estava sendo esvaziada.
Turistas não vinham. Táxis frequentemente se recusavam a entrar. A imprensa nacional noticiava o Vidigal apenas quando alguém era baleado. O imóvel dentro da favela era barato e ninguém de fora da comunidade comprava. Enquanto isso, a Zona Sul abaixo — Leblon, São Conrado — tornava-se um dos endereços mais caros da América do Sul, e a vista do topo do Vidigal tornava-se, estritamente em termos imobiliários, a vista mais valiosa não vendida do Rio.
Era o paradoxo que, eventualmente, mudaria tudo.
Pacificação — 2011 e 2012
A Unidade de Polícia Pacificadora foi um programa lançado pelo governo do estado do Rio em 2008. A teoria era simples, mesmo que a execução não fosse. Uma operação da polícia militar entraria em uma favela, removeria a liderança do tráfico, e então uma unidade de policiamento comunitário especialmente treinada — a UPP propriamente dita — instalaria uma base permanente dentro do bairro. Serviços viriam depois. O turismo viria. A paz viria.
A UPP do Vidigal foi instalada em janeiro de 2012, após uma operação militar em novembro de 2011. A operação foi sem derramamento de sangue — os traficantes tinham saído no dia anterior, avisados como sempre eram. A base da UPP foi instalada em um prédio reformado perto do topo do Alto Vidigal. Uma placa foi erguida com os dizeres Polícia Pacificadora. Os moradores estavam, segundo a maioria dos relatos, cautelosamente esperançosos.
O que aconteceu a seguir é inseparável do que já estava acontecendo na cidade. O Rio havia sido anunciado como sede da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016. Capital internacional estava entrando a jato. O boom imobiliário de 2010–2013 foi o maior da história moderna da cidade. Nesse contexto, surgiu um Vidigal pacificado com a melhor vista para o oceano da Zona Sul e preços um décimo do Leblon.
As primeiras pousadas abriram em meses. O Alto Vidigal, uma hospedagem no topo do morro gerenciada por Pedro Henrique — um alemão-brasileiro com gosto por house music e noites longas — pivotou de albergue para mochileiros a espaço cultural e começou a receber festas de sexta-feira na sua laje. O Bar da Laje, aberto em 2010 pelo morador Elizeu Bernardo, tornou-se o ponto de pôr do sol preferido de uma nova geração de turistas. Hollywood chegou: David Beckham teria comprado uma casa perto do topo do morro em 2013. Alicia Keys tocou no Bar da Laje. David Guetta agitou o Sheraton no sopé do morro. Snoop Dogg gravou um clipe. O Papa Francisco visitou uma favela do Rio durante a Jornada Mundial da Juventude 2013 — tecnicamente Varginha, na Zona Norte, mas os efeitos de onda chegaram a cada comunidade pacificada, incluindo o Vidigal.
Os preços dos imóveis dentro do Vidigal subiram cerca de 400% entre 2009 e 2014. Muitos moradores venderam e se mudaram. Outros reformaram, acrescentaram um andar e começaram a alugar quartos. Uma nova geração de profissionais cariocas — designers, chefs, arquitetos — alugava casas no Vidigal especificamente porque podiam pagar pela vista que ninguém no asfalto formal conseguia. O bairro se tornou, por uma janela de cerca de quatro anos, um dos lugares mais fotografados do planeta.
Se você quer ter uma ideia de quem passou por lá nesses anos, nosso artigo separado sobre celebridades no Vidigal é o mergulho fundo. A versão curta: quase todo mundo passou.
O boom foi real. O boom foi complicado.
Duas coisas eram verdadeiras ao mesmo tempo entre 2012 e 2016.
O que os moradores ganharam
- Valorização dos imóveis que tornou muitas famílias novas ricas.
- Renda do turismo — pousadas, bares, passeios, restaurantes, aluguéis.
- Investimento em infraestrutura da prefeitura que havia sido adiado por décadas.
- Uma mudança na forma como os de fora falavam sobre a favela.
O que ficou mais difícil
- Os aluguéis subiram mais rápido que os salários; moradores originais foram deslocados.
- O turismo mercantilizou aspectos da vida cotidiana.
- O modelo da UPP, supervendido, não sobreviveria à crise fiscal do estado.
- Alguns espaços comunitários antigos foram substituídos por aluguéis de curta temporada.
Após a pacificação — 2017 a 2019
O programa UPP era insustentável e a maioria de quem estava próximo a ele já sabia disso em 2015. O governo do estado do Rio havia entrado em colapso fiscal, sem conseguir pagar seus aposentados e lutando para pagar seus policiais. O treinamento em policiamento comunitário que era o núcleo do modelo UPP foi cortado. Os oficiais que se revezavam eram cada vez menos experientes. As unidades em várias favelas foram silenciosamente reduzidas.
Em setembro de 2017, a presença da UPP no Vidigal foi efetivamente retirada. A base ficou tecnicamente em operação, mas os números caíram e os patrulhamentos rarearam. Houve um período breve e tenso no final de 2017 e início de 2018 em que antigas células do tráfico tentaram se reinstalar. Alguns tiroteios. Um turista espanhol da era olímpica foi baleado em um carro que entrou na Rocinha por engano. A imprensa internacional escreveu o obituário da pacificação.
Mas o Vidigal não voltou atrás. Essa é a parte da história que passa despercebida. Muita coisa havia mudado — capital demais, negócios demais gerenciados por moradores, forasteiros demais que agora moravam no morro, infraestrutura informal demais. A associação comercial da comunidade organizou sua própria coordenação de segurança. Pousadas e bares continuaram abertos. O caminho da praia, os ônibus, os pequenos comércios continuaram. O que substituiu a UPP foi um híbrido de ordem informal, organização comunitária e uma presença do estado muito menos visível. Era imperfeito. Funcionou.
O turismo caiu, mas não desapareceu. A Copa do Mundo de 2018 na Rússia e a Copa América de 2019 no Brasil mantiveram um fio de visitantes internacionais chegando. O Nós do Morro continuou. Os Acadêmicos do Vidigal seguiram desfilando. Os ensaios de samba das quartas-feira no centro comunitário continuaram, em grande parte despercebidos pela cidade asfaltada lá embaixo.
Se você quer a resposta atual sobre se tudo isso soma um lugar seguro para visitantes em 2026, esse é seu próprio artigo — o Vidigal é seguro percorre o quadro honesto de 2026.
~~~A pandemia e a quarta onda — 2020 a 2026
A COVID bateu forte no Vidigal. Pousadas fecharam. Bares fecharam. A economia do turismo que havia se construído ao longo de uma década foi a zero em três semanas. Vários negócios que funcionavam há anos não reabriram. A associação de moradores distribuiu cestas básicas de emergência ao longo de 2020 e 2021, financiadas em parte por uma diáspora de ex-moradores e vizinhos solidários da Zona Sul. O Nós do Morro migrou suas aulas para o online. O Bar da Laje vendia marmitas por uma janela dos fundos.
A recuperação começou devagar em 2022 e acelerou ao longo de 2023. As pessoas que voltaram eram diferentes das que tinham chegado durante o boom de 2012–2016. Menos celebridades. Menos turistas de festa de fim de semana. Mais trabalhadores remotos de longa estadia, mais casais de nômades digitais alugando por três meses, mais europeus e americanos criativos entre os 30 e 40 anos que queriam um bairro, não um resort. O inventário de Airbnb no Vidigal triplicou aproximadamente entre 2022 e 2025, e o tempo médio de estadia praticamente dobrou.
Essa quarta onda tem uma textura diferente das anteriores. Os migrantes dos anos 1940 construíram. Os que consolidaram a luta dos anos 1970 brigaram pela escritura. A onda de 2012 alugou beliches em albergues e bebeu nas lajes. A onda de 2024–2026 faz café em casa, trabalha na varanda, desce para a praia às quatro da tarde e fica por uma temporada. Alguns voltam. Alguns compram.
A infraestrutura cultural do bairro, enquanto isso, continuou de pé. O Nós do Morro celebrou seu quadragésimo ano em 2026 e continua dando aulas em seu prédio no trecho médio do morro. Os ensaios anuais de samba nos Acadêmicos do Vidigal continuam. Uma geração de DJs e produtores nascidos no Vidigal — criados no boom de 2012–2016 — agora faz turnês internacionais e divide o tempo entre Rio, Lisboa e Berlim. Projetos de arte de rua continuam. Algumas pequenas galerias abriram. A favela não é um museu de si mesma nem uma casca gentrificada. É um bairro em funcionamento que aprendeu a receber pessoas sem ser recebido.
Para quem tem curiosidade de como isso se compara ao seu vizinho maior do outro lado da crista, nosso guia da favela Rocinha percorre essa história separada. A Rocinha tem dez vezes o tamanho, uma história diferente e um presente diferente.
O que o Vidigal é agora
Se você sobe pela Avenida João Goulart hoje — a principal rua comercial que sobe o morro a partir da praia — passa por camadas de história que dá quase para ler em ordem. Os quarteirões perto da praia são polidos. Um quiosque de clube de praia. Uma loja de surf. Dois restaurantes novos com garçons que falam português e são de fato portugueses. Cinquenta metros acima, a arquitetura fica mais antiga e mais densa. Uma padaria que está na mesma esquina desde 1987. Um ferragem. Um salão de beleza. Um açougue. Mais cem metros e você está fundo na parte residencial do meio do morro, onde o bairro ainda é predominantemente o que era nos anos 1980 — popular, unido, barulhento de conversas pelas janelas abertas. Continue subindo e chega às pousadas e espaços de festa do Alto Vidigal: uma camada de infraestrutura de forasteiros enxertada no topo.
O que você não encontra, em lugar nenhum, é o simulacro turístico e higienizado de uma favela que o texto de marketing em outras partes do Rio tenta vender. O Vidigal não foi transformado em parque temático. Os moradores são moradores. Os comércios são comércios de verdade. As crianças jogam bola nas mesmas quadrinhas em que seus pais jogaram. A história que acabamos de percorrer — as décadas de migração, a remoção que não aconteceu, as décadas do tráfico, a pacificação, o boom, a pandemia, a recuperação — está toda ainda presente nos mesmos dois quilômetros quadrados. Dá para ficar em um ponto só e apontar para três delas.
A vista do topo é, por tudo o que vale, genuinamente uma das grandes vistas para o oceano do mundo. É em parte isso que trouxe as pessoas. Mas a razão pela qual as pessoas ficam — ou voltam — não é a vista. É o fato de que o Vidigal ainda é um bairro. Há uma diferença entre uma vista e um lugar, e o Vidigal, por ora, continua sendo os dois. O nosso pequeno pedaço disso é um dois quartos com laje e terraço apontado direto para o Dois Irmãos. O apartamento é, na escala de um século de história, uma nota de rodapé. Mas se você quiser dormir dentro da história em vez de apenas lê-la, é por aí.
Perguntas sobre a história.
De onde vem o nome Vidigal?
Do Major Miguel Nunes Vidigal, chefe de polícia da era colonial no Rio que recebeu uma concessão de terras costeiras no início do século XIX. O morro que hoje leva seu nome fazia parte dessa concessão. A favela cresceu nele mais de cem anos depois.
Quando o Vidigal se tornou uma favela?
O primeiro registro de ocupação data do final dos anos 1930 e início dos 1940, construído por pescadores e trabalhadores da Avenida Niemeyer. O crescimento maior veio nos anos 1960 e 1970, com a chegada de migrantes do Nordeste e de Minas Gerais durante a ditadura militar.
O que foi a remoção de 1977?
O governo do estado do Rio, sob o regime militar, ordenou a remoção forçada de cerca de nove mil moradores do Vidigal para habitações populares no extremo da Zona Oeste. Os moradores se organizaram; o Cardeal Dom Eugênio Sales e o movimento da Pastoral de Favelas os apoiaram; os tribunais federais bloquearam a remoção. Continua sendo um momento decisivo na história do Vidigal no Rio e uma rara derrota do regime em uma remoção de favela.
O que era a UPP?
A Unidade de Polícia Pacificadora foi um programa de policiamento comunitário do estado do Rio instalado em muitas favelas entre 2008 e 2014. A UPP do Vidigal foi instalada em janeiro de 2012 e desbloqueou o boom turístico e imobiliário de 2012–2016. Foi efetivamente retirada em setembro de 2017.
O Vidigal ainda é uma favela em 2026?
Sim, no sentido administrativo e histórico. É uma comunidade de encosta autoconstruída com uma história específica, sua própria governança e seu próprio tecido social. A palavra favela em português não é um palavrão — é uma descrição. O Vidigal é uma favela que também está, agora, parcialmente integrada à economia formal do turismo. As duas coisas são verdadeiras.
Quem é o Nós do Morro?
Uma companhia de teatro fundada dentro do Vidigal em 1986 por Guti Fraga. Formou dezenas de atores, muitos dos quais apareceram em Cidade de Deus, Tropa de Elite e novelas da Globo. Ainda opera no morro em 2026, em seu quadragésimo ano.
Os visitantes podem subir o morro à vontade?
Sim. A principal rua comercial é aberta e movimentada. Mototaxistas circulam subindo e descendo sem parar. Respeite a comunidade — fotografe pessoas apenas com permissão, não adentre vielas residenciais sem sinalização sem motivo — e a subida é parte do ponto. Para as noites de show no Bar da Laje ou no Alto Vidigal, veja nosso guia de shows e eventos.
Um século é pouco tempo para um bairro e muito tempo para uma memória. Os que construíram os primeiros barracos nos anos 1940 se foram. Seus netos estão gerenciando pousadas, dirigindo mototáxis, atuando em séries da Netflix, vendendo açaí na praia e, em alguns casos, vendendo a casa da família por um valor que ninguém poderia ter imaginado em 1977. A história do Vidigal no Rio não acabou. O próximo capítulo está sendo escrito pela quarta onda de chegantes, pelas famílias que ficaram e por quem quer que esteja na laje esta noite vendo as luzes se acenderem pelo Leblon.